VOO 4823: Doze anos de luto e história

“Passados dez anos do acidente, o riobranco.net, relembra o que a tragédia foi capaz, de deixar marcas em geração após geração. A população ficou atônita. Foram imagens que levarão muito tempo para que seja amenizada na memória de todos”.

[Torre C.] – reporte avistando ou iniciando a arremetida, quatro oito dois três!

[Aeronave Rico] – Dois Três! [Torre C.] – Quatro oito dois três informe a sua posição e confirme o trem de pouso! (Nesse momento o comandante deixou de responder e o silêncio pairou nas gravações da caixa preta)

 

Wanglézio Braga

“Era uma tarde bonita da sexta-feira 30 agosto. Em Cruzeiro do Sul, muitos estavam tentando embarcar no aeroporto, dentre eles políticos, empresários e pessoas que queriam participar da Expoacre. O Saguão estava lotado, o voo estava superlotado. Dentro da aeronave, fiquei na segunda cadeira, minutos seguinte, embarcamos e fizemos uma escala em Tarauacá e embarcaram duas pessoas. Ao chegarmos próximo a Rio Branco, repentinamente tempo mudou, não vimos às luzes da cidade e tudo escureceu. O comandante avisou que íamos pousar, e lá no teto do avião, uma luz informava que tínhamos de colocar os cintos. No momento chovia pouco, entretanto, não senti turbulência e nem ouvi baralho de nada, parecia que tudo estava normal”.

“Chegando próximo a Rio Branco ouvir um estalo forte, abaixei, e não vi mais nada. Minutos depois, lembrei que estava dentro do avião e que tínhamos sofrido um acidente, comecei a gritar por um colega que tinha viajado comigo e ele não respondeu. Tentei ficar lúcida, mais minha mão estava presa. O cinto de segurança apertava muito a minha barriga e meu corpo estava tomado pelo querosene quente. Ninguém falava nada e eu só queria sair de lá”.  

“Na hora, um filme passou na minha cabeça que fervia por causa do querosene, eu não sabia o que fazer se tentava me desatar ou se conseguia tirar a cadeira do ‘João Garapa’ em cima de mim. Como era pesado e gemendo de dor, eu pedia para ele sair. Com um tempo, ouvir uma voz de um homem fora do avião, e com a faca, ele cortou os meus cintos e me ajudou a sair. O cheiro era muito forte e passei ouvir gritos de socorro e tornei a desmaiar”.

“Depois do acidente, procurei o empresário Hilário Melo (Manu) estava bastante abalado, afinal o primo João Melo, morreu na hora, enquanto o outro primo Hassen de Melo Cameli sobreviveu ao acidente trágico. Ele contou que no momento da queda Hassen Cameli e Teodorico Tomé de Melo, foram jogados para fora da aeronave. Imediatamente, Hassen ligou para o celular do ex-governador Orlei Cameli, em Cruzeiro do Sul, para comunicar sobre o ocorrido. Quando o motorista Valdormiro Rodrigues Matos e o Colega de Trabalho Francisco Morais de Matos, chegaram no local do acidente, avistaram os dois sobreviventes andando tropegamente no meio dos corpos. Em seguida, eles foram socorridos pelos funcionários da Secretaria de Saúde”. 

O depoimento acima é da sobrevivente Maria de Fátima Meireles de Almeida. Ela havia viajado para ministrar um curso em Cruzeiro do Sul, ao finalizar seus trabalhos na cidade, embarcou no Voo 4823.

O Acidente que vitimou 23 pessoas

Era final de tarde da sexta-feira, 30 de agosto de 2002, quando o comandante solicitou autorização para a Torre de Comandando para pousar no Aeroporto Nacional de Rio Branco, Plácido de Castro. A tripulação formada por Paulo Roberto Tavares (comandante), Paulo Roberto Nascimento (copiloto) e Kátia Regina (comissária), transportavam na aeronave, 31 passageiros na aeronave “Brasília”, prefixo PT WRQ [Papa Tango - Wisk Romeu Quebec].

A aeronave caiu próximo a cabeceira da pista do Aeroporto, no Ramal do Chapada. O acidente vitimou fatalmente 23 pessoas e deixou 8 sobreviventes. O avião havia decolado às 16h25min de Cruzeiro do Sul, a 650 quilômetros de Rio Branco. Ele fez uma escala em Tarauacá, a 330 quilômetros da capital.

Um inquérito policial foi instaurado em setembro de 2002 pelo Ministério Público Federal e encerrado em abril de 2010 para apurar a responsabilização penal dos possíveis responsáveis por falhas mecânicas ou pela suposta falta de combustível na aeronave que teria sido a causa do acidente.

O trabalho de atendimento no Pronto Socorro

Enquanto isso no Pronto Socorro, o supervisor do Pronto Socorro, Oterval Cavalcante, chegava para trabalhar. Ao trocar de turno, foi informado do acidente aéreo, entretanto, não sabia onde havia acontecido e a quantidade de feriados. “Te prepara que um avião caiu e ninguém sabe ao certo quanto são os feridos”, disse o colega de Oterval.

Sem informações oficiais, o supervisor de macas recrutou seus colaboradores para uma reunião, convidou ainda alguns Técnicos de Enfermagem que estavam de folga no dia para compor a equipe. “Pensei em disponibilizar o maior número de colegas, pois a minha equipe eram apenas seis. Como eram muitos, resolvi pedir apoio da Policia Militar que bloqueou as ruas Izaura Parente e Nações Unidas para desafogar o trânsito e deixar livre para o acesso das ambulâncias. No prédio, isolamos a entrada para evitar curiosos e que os familiares das vítimas não atrapalhassem os trabalhos de atendimento”, comentou Oterval.

O supervisor lembra que carregou na maca o deputado federal Idelfonso Cordeiro e que a comoção dos seus familiares foi marcante naquele plantão. “Lembro que entrei para trabalhar de tarde e quando olhei para a janela já era manhã. O trabalho passou tão rápido que esqueci até de jantar. Durante muitos dias não conseguir dormir, pois as cenas fortes ficaram na minha memória”

O laudo da Perícia Técnica do Cenipa apontou erro humano

Por determinação do DAC (Departamento de Aviação Civil) as 9 toneladas de destroços do avião que ficaram espalhados por mais de 650 metros ás margens do ramal Chapada, da Fazenda dos Alves, foram enviadas para São Paulo. E a caixa-preta da aeronave foi enviada para a sede da Embraer, em São José dos Campos SP.

Passados dois anos da queda da aeronave, o Centro de Investigação, publicou em São Paulo, o resultado da Perícia Técnica, mesmo sendo a sua publicação em caráter preventivo e de alerta. O laudo foi apresentado no dia 08 de julho de 2004 e limitou-se a reconhecer a impossibilidade de emitir parecer categórico acerca da causa que determinou o acidente.

Na época, os representantes da Rico Linhas Aéreas descartaram falhas humanas ou técnicas, pois acreditam que um fenômeno chamado de "tesoura de vento" (rajadas de vento descendente) pode ter causado a queda da aeronave.

No relatório de 26 páginas, Mauro Roberto Ferreira Teixeira, chefe do Cenipa, apontou um conjunto de hipóteses que poderiam ter causado a queda da aeronave dentre essas, falha de comunicação e o não cumprimento dos procedimentos de segurança na hora do pouso.

Em um dos trechos do laudo pericial, o Cenipa descartou a ideia de que “eventos metrológicos pudessem levar a aeronave a altitudes anormais ás de deslocamento na aproximação final para pouso. Quatro testemunhas sobreviventes informaram não haver turbulência durante a aproximação, até o momento do impacto” e que “o combustível remanescentes nos tanques da aeronave contava com cerca de 1.057kg, suficiente para uma autonomia de aproximadamente 2h30min de voo”.

Outro fator que chamou atenção no laudo pericial foi o perfil psicológico dos tripulantes. Durante as pesquisas e diversas entrevistas realizadas pelo Cenipa, foi constatado que existiram “ansiedade, aspecto perceptivo e da atenção, hábitos adquiridos, improvisação, excesso de autoconfiança e relacionamento interpessoal entre eles”.

È possível que a junção desses aspectos tenha propiciado uma situação onde se consta que as normas de Segurança de Voo na operação da aeronave não foram adequadamente observadas e consideradas.

Além disso, o laudo constatou que havia uma pressão, mesmo que inconsciente, para que a aeronave pousasse em Rio Branco naquela noite, em virtude dos passageiros que transportava serem de influência reconhecida na região, como empresários e políticos. Afinal, o voo transcorreu sem nenhum problema que fosse de conhecimento dos órgãos de controle e até mesmo dos passageiros sobreviventes que foram entrevistados durante a investigação do Cenipa.

É possível ainda que a carga de ansiedade e tensão, entre os Comandante e o Copiloto em virtude de estarem realizando um voo noturno sob condições de mau tempo, tenha gerado falhas de percepção e canalização da atenção dos tripulantes para os desvios das informações. O que mais uma vez, os indícios apontam para falhas de padronização na realização dos procedimentos pelos dois.

Os exames, testes e pesquisa realizada nos motores, componentes e lâmpadas da aeronave, demonstraram não haver qualquer anormalidade nos sistemas da aeronave no momento do acidente.

TV Rio Branco:

Cobertura Jornalística, ajuda aos feridos e a repercussão local

Quando falamos no acidente aéreo da Rico Linhas Aéreas, é impossível  não deixar de lembrar do trabalho jornalístico dos principais meios de comunicação da época, e acima de tudo, dos profissionais que realizaram as transmissões.

Ao relembrar o dia 30 de agosto, o diretor de Jornalismo do Complexo O Rio Branco, Márcio Nunes, declara que ninguém esperava que fosse, de fato, uma tragédia tão grande. "Havia uma equipe na rua, que é de costume. Recebemos a notícia de que um avião tinha caído e, mas pensamos que fosse boato, ou que fosse uma aeronave de menor porte. Quando a repórter chegou às proximidades e destacou a dimensão do problema, acionamos todas as pessoas que faziam parte da Tv naquela época", diz.

A TV Rio Branco, foi à primeira emissora de tevê a comparecer no local do acidente. Muitos profissionais deixaram de lado o serviço noticioso para auxiliar na remoção dos feridos, entre estes, a Jornalista Lenilda Cavalcante, que na época era repórter da TV Rio Branco.

“O nosso carro era pequeno e não conseguia entrar no ramal, pois a lama impossibilitava a trafegabilidade. Daí, retornarmos para a emissora, e a dona Célia Mendes cedeu o carro dela para conseguir fazer a matéria, enquanto isso, o comandante do Corpo de Bombeiros pediu para que avisássemos aos telespectadores que quem tivesse carros de tração e caminhonete pudesse levar na entrada do ramal e para ajudar no socorro das vítimas. Ao retornar, o nosso carro foi o primeiro a conseguir entrar no ramal. Os homens do corpo de bombeiros pediram ajuda para colocar os primeiros feridos, cerca de três, e encaminha-los ao PS. O motorista foi pra cidade, e fiquei com o cinegrafista para colher as imagens e começar a trabalhar”, lembrou Lenilda.

Por mais que a forte chuva que caia na região dificultasse o uso dos equipamentos para a gravação, a equipe de reportagem continuou no local. “O pior é que tudo estava escuro e não podíamos acender a luz da câmera, pois produziria faísca, e em todo lugar, tinha vestígios de querosene e o risco de explosão era muito grande. De início eu tentei fazer o meu trabalho, mais não conseguia, parei as gravações, corri pra ajudar, afinal havia muitas pessoas no lugar. A chuva não parava de cai, e foi chegando alguns carros e com a ajuda dos faróis, conseguimos ver o rosto das pessoas que estavam presas entre a lataria do avião. Por todo o lugar, ouvia pedidos de socorro, gritos e choros... Devido a forte lama, tirei o meu sapato que estavam pesados, e retomei as gravações. Enquanto fazia a narração do que via, pisei em um pedaço de osso, que entrou no meu pé”, disse a repórter mostrando as cicatrizes.

Mesmo feriada, Lenilda Cavalcante continuou as gravações. Por usar um equipamento com o sistema Vídeotape, as fitas eram levadas por motoqueiros para a sede da TV Rio Branco que colocava no ar as gravações nos boletins informativos.  

Enquanto isso, na entrada do Pronto Socorro, o repórter Floriano Oliveira acompanhava a chegada dos feridos e colhia outras informações. “Os feridos chegavam em carros, e a minha função era mostrar o que acontecia na chegada do hospital e ainda tinha que repassar as informações para os familiares que ligavam ansiosos no meu celular. E na época, as baterias acabavam rápido, para suprir, recebi alguns telefones para ajudar na cobertura e repassar as informações para os familiares das vítimas”, lembrou o jornalista.

Na busca de informações, o repórter reversava entre o pátio do Pronto Socorro e o Instituto Médico Legal (IML), nesse último, era levado os corpos diagnosticados pelos paramédicos como sem vida. “A movimentação no IML era muito grande, até mais que no Pronto Socorro, o que mais me chocou na cobertura foi a situação que se encontrava os corpos, muitos dilacerados e não dava para reconhecer o rosto das pessoas. E os funcionários do PS tinham informação da situação no IML pela tela da TV Rio Branco”.

Acontecimentos como esses, deixam sequelas para o resto da vida, principalmente, o trauma emocional para os profissionais.

A Repórter Lenilda Cavalcante comentou que por mais de três meses, o cheiro forte de querosene e as imagens das vítimas dentro do avião interferiram na sua vida e que se tornaram marcantes. “Fiquei sem dormir por muitos dias, e todas as vezes que eu tentava, sonhava com queda de avião. As imagens fortes que presenciei estão guardadas na minha memória e não consigo esquecer”, disse Lenilda visivelmente emocionada.

Traumatizado também com a situação, o repórter Floriano Oliveira comentou que “só conseguia dormir com a ajuda de remédios, as primeiras semanas foram difíceis, pois o assunto repercutia todos os dias e aquela situação fixou no meu pensamento”.                                                                                                                                             

"Recebíamos ligações de pessoas procurando informações"

Todo um esquema de comunicação foi montado e 15 pessoas foram responsáveis pela transmissão ao vivo da situação. "Tínhamos quatro equipes na rua, sendo que uma era formada apenas por um cinegrafista. Um apresentador ficou disponível das 21 horas às 2 horas, dando informações à sociedade. Ficamos mobilizados", destaca Nunes.

O envolvimento da TV Rio Branco com o desastre foi tão grande que, por conta da transmissão, várias pessoas chegaram a ligar ao complexo para pedir informações. "As notícias que as pessoas tinham era as que nós passávamos. O local onde o avião caiu era de pouco acesso, e poucas equipes de tv conseguiram chegar até lá. Até mesmo as ambulâncias tiveram dificuldades, e muitas pessoas não chegaram a ser socorridas a tempo pelas más condições na entrada do acidente", explica.

Nesse momento, Márcio percebeu o quão grande era o envolvimento da imprensa com a sociedade. "As pessoas não tinham notícias, então ligavam pra cá por acreditarem que nós tínhamos mais informações. Ocorre que, às vezes, nós realmente tínhamos, já que estávamos o tempo todo presentes. Foi uma noite estressante".

O diretor conta que, no dia seguinte, a equipe já estava toda mobilizada antes mesmo das 8 horas da manhã. "Muita gente não dormiu naquele dia, nem nós. Ficamos muito chocados e sentimos a necessidade de passar informações à sociedade", destaca.

Acesso à fita bruta

No meio televisivo, chama-se de "fita bruta" o material que ainda não foi editado para ir ao ar. Márcio conta que, até hoje, não esquece as cenas que viu na fita que continha todas as cenas. "É algo muito difícil de esquecer, acho que foi naquele dia que me tornei, de certo modo, insensível para esse tipo de catástrofe. As cenas eram tão fortes que não sei se verei algo pior que aquilo", afirma.

De acordo com Nunes, o cenário era de caos. "A população já acha que mostramos muito, imagine o que tinha por trás. A situação era caótica. A ambulância não conseguia chegar, vários corpos estavam mutilados, foi algo de extrema tristeza", diz.

 A trilha Sonora que marcou as transmissões da TV Rio Branco

A transmissão foi tão forte que a própria trilha sonora marcou a queda do avião. A música Conquest of Paradise, do compositor Vangelis. Ela fala de esperança, não tinha nada a ver com o contexto, mas era o cd que eu tinha ao lado para cobrir as imagens. Acabou que a música ficou tão marcada para a sociedade acreana que hoje, caso ela toque em qualquer lugar, todos lembrarão do acidente da Rico", diz Márcio.

Fato é que a música traz, em sua letra, algo que de fato combina com a situação. Na tradução, uma mensagem de paz e tranquilidade se faz presente, servindo tanto às vítimas quanto aos seus familiares. "Em algum lugar encontra-se um paraíso, onde todos encontram a libertação".

A imprensa Nacional divulgou o acidente aéreo

Os jornais, sites, rádios e emissoras de televisão nacional destacaram o acidente ocorrido com o avião Brasília da empresa Rico. Na época, o assunto chamou atenção do país. Inúmeros telefonemas foram registrados para as redações da imprensa local, onde os jornalistas procuravam informações sobre o ocorrido.

Com ajuda dos repórteres locais, que se reversavam na cobertura, O jornal do Brasil, Folha de São Paulo, O Globo, O estadão, Agência Estado e a folha online realizaram uma cobertura especial sobre o acidente.

Morando em São Paulo, o filho da Sobrevivente Maria Almeida, Célio Almeida, relatou que só ficou sabendo do acontecimento por meio dos boletins de noticias. “Estava na casa de um amigo quando ouvir o plantão de notícias informando que um avião havia caído no Acre e que várias pessoas estavam feridas. Quando ouvi que era procedente de Cruzeiro do Sul, e que a minha mãe estava viajando para lá fiquei preocupado. Não demorou muito para ver nas imagens que a minha mãe era uma das vitimas e que havia sobrevivido”.

Um telefonema impediu embarque

A funcionária pública, Etelvina Lima, que morava em Cruzeiro do Sul na época, relatou que um telefonema de Porto Velho, impediu que o seu ex-marido fosse uma das vítimas do Voo 4823. “Meu ex-marido, Roberto Lima, já estava com a passagem na mão e o seu destino final era Porto Velho. Ao chegarmos ao saguão do aeroporto, ele conversou com o João Garapa e o Hasseni Cameli, em seguida o Roberto recebeu um telefonema do seu chefe informando que não precisava mais embarcar, pois a reunião daquela noite havia sido cancelada. Com isso, ele cedeu a passagem para uma pessoa que aguardava na fila e que queria viajar para participar da Expoacre”, relatou a ex-moradora.

Outras pessoas e ilustres da cidade também não embarcaram devido à movimentação e o excesso de passageiros que queriam embarcar no Voo. “Lembro ainda que na hora do embarque, o empresário Júnior Betão, que estava no saguão do aeroporto, estava com a passagem e desistiu na hora de embarcar”, detalhou.  

Assim como Júnior Betão, o Empresário Roberto Lima não embarcou, mas, seus amigos que tinham compromissos em Rio Branco não tiveram a mesma sorte e foram vítimas do trágico acidente. “Depois retornamos para casa, jantamos e fomos ouvir rádio, quando o locutor informou que o avião havia caído em Rio Branco e que dezenas de pessoas haviam falecido. Naquela hora, ‘o mundo caiu aos nossos pés’, pois tínhamos perdido nossos amigos, dentre eles o deputado Idelfonso Cordeiro. Naquele momento meu ex-marido entrou em desespero, ajoelhou, agradeceu aos céus por não ter embarcado. Até hoje digo que ele foi um protegido por Deus, pois poderia ser uma das vítimas”, enfatizou Etelvina Lima.

A família Cordeiro de Luto

O deputado Federal, Idelfonso Cordeiro e sua esposa, dona Arlete Souza, também estavam abordo do Voo 4823. Ele iria participar da Expoacre, afinal, além de deputado era empresário em sua terra. Eleito em 1998, o deputado conquistou 10,1 mil votos, o terceiro mais votado do Acre nas eleições daquele fatídico tempo.

 “Uma imagem marcou muito, principalmente no pátio do Pronto Socorro, quando as filhas de Idelfonso, Ilmara e Mara, tentavam desesperadamente entrar na sala de Emergência e eram impedidas por enfermeiros. Tudo para tentar salvar a vida do seu querido pai”, lembrou o jornalista Floriano Oliveira.

Na época do acidente, o ex-governador Jorge Viana decretou luto oficial por três dias, onde suspendeu a festança da Expoacre e a propaganda eleitoral foi cancelada.

Como pai, Idelfonso administrou intempéries. Sua filha, Ilmara Rodrigues Cordeiro, atual Secretária de Turismo, carregou o legado do seu pai, foi candidata a deputada estadual nas eleições daquele ano, mais não conseguiu a vaga.

Na cidade de Cruzeiro do Sul, os comerciantes da cidade fecharam as portas em homenagem ao deputado e todas as famílias da cidade foram às ruas Receber com lástima o corpo das vitimas.

O Deputado guardou com carinho a numerosa família e deixou órfãos milhares de conterrâneos, acostumados a recorrer para quase tudo.

Velório Coletivo: De Rio Branco á Rio Branco

Parte da Capital do Acre, Rio Branco, transferiu-se para Cruzeiro do Sul.

Depois de embalsamados, os corpos foram transladados para Cruzeiro do Sul. Ao chegar ao município, dois carros do corpo de bombeiros, ornamentados com a bandeira do Acre, esperavam no Aeroporto. Após uma rápida cerimônia, milhares de moradores dentre eles parentes, amigos e curiosos formavam uma grande cortejo fúnebre e percorreram as principais ruas daquela cidade.

“Não se falava de outra coisa nos quatro cantos de Cruzeiro do Sul, a morte do deputado federal e dos empresários. A cidade não tinha mais forças para chorar. Em quase todas as ruas havia velório, e as que não tinham se tornou estacionamento de carros, caminhões e de bicicletas. A cidade tinha outro cheiro, outra cara, outra cor”, lembra dona Etelvina, que ajudou na organização de um dos velórios.

Em Rio Branco, a Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) e o Colégio Barão do Rio Branco (CERB) foram os locais usados como capela para velar os corpos das vítimas.

Nos dois lugares milhares de pessoas lotavam os espaços, eram parentes e corregilionários das vitimas que vinham de diversos municípios acreanos.

Rico garantiu assistência ás vítimas e aos sobreviventes

A Rico Linhas Aéreas atuava na Região Norte do país, com linhas diretas e conexões em 30 cidades dos Estados do Amazonas, Pará, Rondônia e Acre.  Naquele ano, a frota era composta por 10 aeronaves de fabricação nacional, como o Brasília e Carajás, e estrangeira, como o Sêneca, todos os aparelhos de médio porte, além de helicópteros da Bell.

Em entrevista para o Jornal O Rio Branco datado 05 de Setembro de 2002, o diretor administrativo e financeiro empresa, Metin Yurtsever, informou que o traslado dos corpos das vítimas com os familiares em outras cidades e funerais foram providenciados e que a empresa assumiu as responsabilidades.

Na época a empresa ofereceu a assistência material e emocional necessária aos parentes das vítimas e aos sobreviventes do acidente. “Recebi até o final da minha recuperação o auxilio integral da Rico, que colocou a disposição psicólogos para auxiliar meus filhos e marido durante os anos de tratamento”, confirmou Maria Almeida.  

A vida continua

Passados dez anos do acidente aéreo que chocou o estado, a sobrevivente do Voo 4823, Maria Almeida, disse que as sequelas continuam mais que conseguiu superou o medo e a super o trauma. “Eu vi a morte na minha frente, tenho problemas na coluna, na pele e na perna, mas fui uma sobrevivente. Hoje aposentada, levo uma vida saudável, moro em Guajará Mirim (RO), sou empresária e candidata a vereadora pelo Partido dos Trabalhadores no município. E quem achou que depois disso eu não viajaria, consegui superar o trauma, e constantemente viajo de avião”, finalizou Maria de Fátima Meireles de Almeida.

Ficha Técnica da Tripulação:

O Comandante Paulo Roberto Tavares foi formado pelo aeroclube de Fortaleza em 1983, tendo voado cerca de 10 mil horas de voo. Estava com seus documentos de habilitação válidos e com grande qualificação e experiência para a realização do tipo de voo. Era chefe de equipamento e bastante habilidoso e experiente na região.
Já o copiloto, Paulo Roberto Nascimento, com quase 5 mil horas de Voo, foi formado pelo aeroclube do Amazonas em 1995. Era considerado um ótimo profissional por todos na empresa. Como característica comportamental, demonstrava ser tímido e pouco conversava em voo.
 

 


Lavar as mãos
A lavagem deve ser feita frequentemente com água e sabão por pelo menos 20 segundos, respeitando os 5 momentos de higienização.


Não tocar o rosto
Evite encostar as mãos não lavadas na boca, nos olhos e nariz. Essas são as principais portas de entradas do coronavírus no organismo.


Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar
O ideal é usar cotovelo ou lenço. Se utilizar papel, jogue fora imediatamente.


Usar álcool em gel
Se não houver água e sabonete para lavar a mão, use o álcool gel 70%, que é eficiente para matar o vírus e outras possíves bactérias.


Evitar contato se estiver doente
Quem está com sintomas de doença respiratória deve evitar apertar as mãos, abraçar, beijar ou compartilhar objeto. Se puder, fique em casa.

Usar máscara se apresentar sintomas
Quem está com sintomas como tosse e espirro deve usar máscara mesmo sem o diagnóstico confirmado de covid-19.