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Péssimo exemplo

 Péssimo exemplo

Não se combate uma injustiça com outra.

 

Em resposta a uma pergunta que lhes fora feita sobre a dosimetria da pena imposta a um condenado, assim respondeu a ministra Cármen Lúcia, vice-presidente do STF-Supremo Tribunal Federal: “qualquer condenação que ultrapasse o direito é vingança, não justiça. E vingança se tem na barbárie, não na civilização”.  De outro lado, vejamos o que disse um dos mais ilustres negros da história da humanidade, no caso, o rei Pelé, ao se reportar sobre sua extraordinária carreira futebolística e as tantas discriminações raciais que sofrera: “Se eu fosse querer parar o jogo cada vez que me chamassem de macaco ou de crioulo, todos os jogos teriam parado”.   

Que o racismo é um crime que precisa ser permanente e exemplarmente combatido, que assim seja, até porque, dada a nossa abominável herança escravagista, jamais poderemos recuar um milímetro na caminhada contra quaisquer discriminações, e em particular, na luta contra a discriminação racial, por ser a mais perversa de todas.        

Objetivando-se: o que ocorreu com o goleiro Aranha, do Santos Futebol Clube, coincidentemente, o time do coração e da alma do rei Pelé, no máximo, poderia ser considerado um crime de racismo por parte de quem o rotulou de macaco, jamais, um crime que pudesse levar a punição, por ser extremamente desproporcional, não só em relação ao Grêmio futebol Clube, como de resto, a toda a sua imensa e apaixonada torcida.

Sinceramente: a exclusão do Grêmio num campeonato de dimensão nacional, bastando para tanto o fato de uma de suas torcedoras haver tratado o goleiro Aranha de macaco, sem dúvidas, não se prestará como um exemplo na luta contra o racismo, até porque, no mundo do futebol, sejam nos nossos campos de várzeas, as mais esplendorosas arenas, o xingamento tornou-se numa linguagem quase que universal, tanto através de palavras ou de gestos, aonde nem mesmo a sua maior autoridade, o juiz, consegue escapar. Qual o juiz que já não teve a sua mãe abusivamente xingada?

Se mantida a inoportuna punição, pelos precedentes que ela certamente iria propiciar, seria das arquibancadas, e não mais de dentro das tradicionais quatro linhas, que um time seria derrotado pelo outro. Pior que isto: desclassificado para futuras competições, caso estivesse participando de um campeonato. O Grêmio, por exemplo, numa disputa com o seu maior rival, o Internacional, bastaria que um gremista, convenientemente vestido com a camiseta do Internacional e empunhado sua bandeira, resolvesse xingar um dos jogadores do Grêmio, chamando-o de macaco ou lhes atirando uma banana para ser punido. A recíproca também seria verdadeira e certamente passaria a ser utilizada pelas mais diversas torcidas.

Punir um time inteiro, e de resto, todos os seus torcedores, tão somente baseado num xingamento proferido por quem quer que seja é, certamente, e em nome da própria justiça, a pior injustiça.

A ser mantida a punição imposta ao Grêmio, e se a moda pegar, e como teria tudo para pegar, imagine o que acontecerá no Rio de Janeiro, numa disputa entre Vasco e Flamengo, em Minas Gerais uma disputa entre Atlético e Cruzeiro, e no próprio Rio Grande do Sul, numa disputa entre Grêmio e Internacional.

Extrema justiça, máxima injustiça!

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