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Saúde

Governo disponibiliza tratamento gratuito para crianças com baixa estatura

14 de Maio de 2018 às 08:53:57

Ser chamada de baixinha pelos coleguinhas ou sempre ser a menor da turma durante os primeiros anos da vida escolar nunca foi problema ou causou incômodo para Maria Clara, isso até os 8 ou 9 anos de idade. Com o início da pré-adolescência, a baixa estatura começou a chamar atenção da família e da própria menina, que passou a ter uma percepção melhor de que sua altura não correspondia à idade.

“Às vezes é chato ficar falando que tenho uma idade e as pessoas ficam comentando que pareço ter bem menos. Por exemplo, quando estou com minhas colegas na hora do intervalo da escola, vem alguém e pergunta se estou adiantada na turma. Antes era legal, porque tinha alguns privilégios, como ser a primeira da fila para pegar o lanche na cantina ou sentar nas carteiras da frente”, conta Maria Clara.

Maria Clara tem hoje 11 anos, e há quatro meses, após a confirmação por exames e avaliação do endocrinologista, teve que iniciar o tratamento com o hormônio do crescimento, também chamado de GH ou somatropina. Inviável por meio particular, devido ao custo elevado, o que pouca gente sabe é que o tratamento é disponível e acessível na rede pública de saúde, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Já tinha colegas que faziam o tratamento e falavam sobre ter que tomar todo dia uma injeção. No início fiquei com um pouco de medo de doer, mas agora já me acostumei. A melhor parte é quando minha mãe vai medir minha altura e a marca na parede vai subindo um pouquinho a cada mês”, celebra Maria Clara, que guarda com carinho todos os frasquinhos vazios da medicação que tomou. Até agora já são 81 doses, desde que iniciou o tratamento.

O desafio da água

Ainda que os pais não sejam altos, a baixa estatura em relação à idade merece investigação. Pelo menos quando se quer ter certeza de que a saúde dos filhos vai bem. É o que pensa e o que motivou a jornalista Lane Valle, mãe da Maria Clara, a buscar ajuda profissional para saber se a filha estava ou não com algum problema que estivesse comprometendo seu crescimento.

“Claro que, em uma sociedade cheia de padrões, a gente acaba criando expectativas em relação a uma boa estatura dos filhos. Mas sabia que esse déficit no crescimento devido à deficiência hormonal poderia denunciar uma doença ou ocasionar problemas futuros para a vida dela, além do bullying na escola, na vida acadêmica e profissional”, analisa a mãe.

A preocupação em relação à baixa estatura da Maria Clara se intensificou quando, em consultas de rotina, o pediatra confirmou que a menina estava muito abaixo da linha na curva do crescimento e que certamente seria necessário fazer o uso do GH. A jornalista conta que ficou com receio de não conseguir o tratamento na rede pública ou mesmo ter dificuldades para ter acesso à medicação com rapidez.

Uma questão de saúde

“Fiquei apreensiva, sabia que se tratava de uma medicação muito cara e não tinha certeza se iria conseguir pelo Estado. Na verdade, achava até que não era disponível na rede pública. Assim que o endocrinologista disse que ela teria que fazer uso do GH, e que estávamos no limite para iniciar o tratamento em decorrência da idade, pensei que enfrentaria dificuldades para conseguir a medicação. Mas, para minha surpresa e alegria, um mês depois de dar entrada com o processo na Sesacre, o centro de medicamentos excepcionais me ligou para ir buscar o GH. Hoje, graças a Deus, já estamos caminhando para o quarto mês de tratamento e os resultados já são visíveis. Cada centímetro vale outro e é comemorado com muita alegria e gratidão”, exalta a mãe.

Assim como a mãe da Maria Clara, o tratamento oferecido pelo SUS não é muito conhecido pela população. No Acre, cerca de 60 crianças têm acesso ao GH pela rede pública. A medicação é retirada no Centro de Referência para o Programa de Medicamentos Excepcionais (Creme), vinculado à Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre).

A unidade funciona como estratégia da política de assistência farmacêutica, que tem por objetivo disponibilizar medicamentos para usuários do SUS para tratamento de doenças específicas, que atingem um número limitado de pacientes, os quais, na maioria das vezes, fazem uso desses remédios por períodos prolongados, com custos elevados individualmente.

Entre as patologias incluídas no programa estão insuficiência renal crônica, hepatite viral B, C e Delta, artrite, problemas de crescimento, profilaxia da reinfecção pelo vírus da hepatite B pós-transplante de fígado, esclerose múltipla e outras. Imunossupressores para pacientes transplantados também fazem parte da grade de medicamentos especializados do Estado.

“O tratamento com GH tem ganhado projeção entre a população, que anteriormente nem tinha noção que era disponível e que havia essa possibilidade de tratar via SUS”, destaca o endocrinologista Abraão Miranda. O médico, que atende no Hospital das Clínicas (HC), além da Maria Clara acompanha o tratamento de crescimento de outras vinte e cinco crianças. Ele explica como é feito o uso do GH e quando ele deve ser indicado.

“Quando a gente vai julgar que uma criança tem baixa estatura? A idade escolar é um bom referencial para detectar se há algum desnível de altura em relação aos colegas de classe. Partindo desse principio, deve-se procurar um especialista, não necessariamente um endócrino. Pode ser um pediatra ou um clínico do posto de saúde, que também tem acesso às curvas do crescimento e pode identificar por meio do gráfico se o paciente está abaixo do esperado. Ou seja, o que aparentemente era uma impressão pode se tornar uma confirmação por meio de exames e gráfico da estatura. A partir daí, inicia-se o acompanhamento da velocidade do crescimento, antes de indicar o uso de GH”, orienta o médico.

Sobre o GH

GH (do inglês growth hormone) é um hormônio de crescimento e está presente em todas as pessoas. Ele é produzido pela glândula hipófise, situada na base do crânio, e é muito importante para o crescimento desde os primeiros anos de vida. Quando é verificado que a criança não tem uma produção eficaz deste hormônio é que se indica o tratamento de reposição.

Até que idade pode ser feito o uso de GH?

Em geral, o tratamento pode ser feito até que se atinja a estatura final planejada. Em geral, isso não se baseia na idade cronológica, mas sim na idade óssea e na velocidade de crescimento que a criança está apresentando. “Quanto antes da puberdade o tratamento puder ser feito, melhor. Porque vamos ter mais tempo para tratar e conseguir atingir uma recuperação da estatura”, afirma o médico.

Como o tratamento é feito

O tratamento com GH é feito através de injeções diárias, aplicadas ao deitar, por via subcutânea (isto é, na gordura) nas coxas, braços, nádegas ou abdome. Não existem preparações em formas de comprimidos, sprays, supositórios ou adesivos.

Entretanto, nunca é demais lembrar que o fermento da criança são os cuidados diários com a saúde. Então, invista em uma boa alimentação, uma rotina saudável de sono e exercícios físicos, além, é claro, do acompanhamento pediátrico durante toda a infância.

 

 

Agência




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