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Dia da Cultura Ayahuasqueira: Uma questão de justiça, reconhecimento e respeito aos povos

03 de Agosto de 2018 às 08:41:26

Da redação

O Estado do Acre deu um importante passo no reconhecimento às tradições da cultura da Ayahuasqueira. No mês passado o executivo acreano incluiu no calendário oficial o “Dia da Cultura Ayahuasqueira” celebrado sempre em 24 de novembro. No entanto, muito mais que incluir esse dia no calendário oficial, para índios, estudiosos e religiosos, a data se tornou um sinônimo de justiça e respeito aos povos que utilizam o chá mais popular da Amazônia.

Para chegar a tal reconhecimento foram anos de debates que começou na década de 80, passou pelos anos 90 e persistiu até os tempos atuais. Em 1992, por exemplo, ocorreu um grande encontro entre indígenas, religiosos, e adeptos onde construíram diretrizes, padronizações sobre consumo, produção, distribuição e outros aspectos importantes sobre a ayahuasca.

“Naquele ano, foi realizado um extensivo debate sobre a questão de higienização, se pode consumir o chá com bebidas alcoólicas, se é correto vender ou não, entre outras diretrizes. Então, já houve muitos debates sobre isso inclusive nos níveis nacionais e internacionais. Instituir tal data no calendário acreano também foi pauta naqueles anos e perdurou por esses dias. Hoje, conseguimos esse importante momento graças ao trabalho da Câmara Temática que foi criada em Rio Branco e que verificou-se elevar essa pauta aos deputados ”, lembra Toinho Alves, um dos membros da Câmara Temática da capital.

Após muito esforço, o projeto passou pelo crivo na Assembleia Legislativa (Aleac), durante votação nas comissões bem como no plenário. A pauta, apresentada pela Mesa Diretora, ganhou parecer favorável da Comissão de Constituição, Justiça e Redação. A relatoria do Projeto de Lei N° 5/2018 foi de responsabilidade da deputada, Eliane Sinhasique. 

“O movimento da ayhuasqueira é uma tradição no estado do Acre e muitas pessoas são adeptas, isso incentiva o turismo religioso e precisamos reconhecer e respeitar essas tradições para que as gerações seguintes possam compreender as diversidades religiosas e culturais. Então, a Assembleia Legislativa teve o prazer de aprovar tal proposta e contribuir socialmente com os adeptos do chá sendo esses indígenas, religiosos ou não”, defendeu.

Apesar de não existir uma organização ou entidade de modelo sindical sobre a cultura ayhuasca no Acre, tal temática ganhou nuances no plano nacional. Em 2008, o ex-ministro da cultura, Gilberto Gil, encaminhou ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o processo para transformar o uso do chá em patrimônio da cultura brasileira. Índios acreanos e membros dos Centros do Daime, União do Vegetal e Barquinha participaram do encontro com o ex-ministro ocorrido em Rio Branco. No entanto, até hoje o processo continua em análises.

Ao passo que o estado do Acre toma iniciativa em reconhecer a cultura ayhuasqueira, adeptos e pesquisadores sobre o assunto enxergam um avanço importante para a sociedade. De acordo com o professor e pesquisador da Universidade Federal do Acre (UFAC), Leonardo Lessin, o estado só tem a ganhar com essa iniciativa tendo em vista que enaltece a cultura religiosa, a prática do turismo local e ainda presta um reconhecimento aos povos indígenas.

“Este processo representa uma importante conquista na história dos grupos ayahuasqueiros, que têm sido, desde a sua origem, frequentemente perseguidos. O fato é que as pessoas serão conscientizadas da importância religiosa e da preservação da bebida, uma vez que a bebida é feita de um cipó que só tem na Amazônia. Por tanto, é um reconhecimento que vai de encontro com o papel estratégico do Acre em defesa dos povos amazônicos, suas populações indígenas, um papel diplomático entre todos e até no fluxo turístico e econômico do estado”, comentou o pesquisador.

Sobre a diplomacia citada pelo pesquisador é preciso abrir um parêntese na linha do tempo. Desde o século passado, quando o seringueiro brasileiro neto de escravos Raimundo Irineu Serra (1892-1971), o mestre Irineu, fundou a doutrina do Santo Daime, e que repercutiu o chá da ayahuasca, e passou a ter seu uso incorporado à religião a qual teve o nome vinculado, muitas pessoas lançam olhares diferenciados e até preconceituosos.

Apesar da globalização, a falta de conhecimento sobre rituais e celebrações com uso da ayahuasca é notória. Setores da imprensa tem discutido o tema, bebida versus religião, usando uma tendência preconceituosa. “Usar essa substância como sacramento causou espanto por muito tempo na sociedade, que não estavão acostumada com isso. Para as religiões, é uma substância extremamente sagrada”, diz.

Na concepção de Lessin, o Governo acreano “fez a sua parte em evitar choques e conflitos, pois valoriza as pessoas que praticam o daime, evitando conflitos sobre a ótica da intolerância religiosa entre os que praticam o cristianismo, religiões de matrizes africanas e outros”. 

O Juiz Federal Jair Facundes em suas inúmeras palestras realizadas nos mais diversos meios da sociedade acreana também vem defendo esse reconhecimento. Facundes apresenta sempre uma abordagem da Ayahusca como um processo multiculturalista através do papel de fortalecer a identidade cultural local e a relação do Daime com as outras tradições religiosas, como o cristianismo e o judaísmo.

“O Daime é uma manifestação religiosa genuinamente nativa. Quem vive aqui tem o direito de não concordar e não gostar, mas precisa respeitar e conhecer melhor essa realidade", defende ele fazendo menção que o chá também “agrega socialmente e produz desenvolvimento humano”.

Sobre agregar socialmente, o pesquisador Leonardo Lessin acrescenta ainda que os indígenas, nos últimos anos, estão levantando a temática da preservação do material (cipó e plantas) para a produção do chá e o consumo consciente entre os povos (indígenas, brancos e religiosos).

“Por isso, estão testemunhando a existência de muitos festivais no estado como dos povos Yawá, Yawanawá e Ashaninka. As participações de brancos, religiosos, nesses eventos produzem agregação social e principalmente a o desenvolvimento humano social”, finaliza.  

FIQUE POR DENTRO

Ayahuasca: Também conhecida como caapi, natema, pindé, hoasca. É o nome de uma bebida feita da fervura de um cipó chamado mariri ( Banisteriopsis Caapi) e das folhas da planta chacrona ( Pyschotria Viridis) típicos da floresta amazônica. É utilizada nos rituiais religiosos como o Santo Daime e União do Vegetal, em países como o Perú, Equador, Colômbia, Bolívia e Brasil. Em 2004, Conselho Nacional Anti-Drogas (CONAD) não a considera alucinógena e também não existe relatos de dependência física.

Chá daime: É o nome sacramental e rogativo de uma bebida religiosa consagrada à Rainha da Floresta dentro de uma doutrina espiritual cristã chamada Doutrina do Santo Daime. Em sua confecção ritualística utilizam-se duas espécies de plantas nativas da Floresta: o cipó jagube (Banisteriopsis caapi) e o arbusto chacrona (Psychotria viridis) também utilizados no preparo da Ayahuasca cujo uso se confundem para os não iniciados. Também é conhecido como chá de Santo Daime e/ou chá do Santo Daime.

Santo Daime: Foi mestre Irineu que adaptou o uso da bebida, antes utilizada de forma terapêutica pelos xamãs indígenas, aos cultos, que incorporam elementos do xamanismo caboclo, do catolicismo, do esoterismo e do espiritismo. Mais tarde, o Santo Daime foi dar origem a duas novas igrejas.

Barquinha e UDV: Após uma revelação, um dos discípulos do mestre Irineu, Daniel Pereira de Matos, fundou a Barquinha, igreja mais restrita ao Acre, que tem elementos africanos mais fortes. Em Rondônia, outro daimista, José Gabriel da Costa, fundou a União do Vegetal (UDV), que adota a grafia hoasca.

 

 




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