Família de Aldir Blanc desmente Regina Duarte e diz que recebeu condolências de assessor: 'Estarrecedor'

Diferentemente do que afirmou a secretária Especial da Cultura, Regina Duarte, em entrevista à CNN Brasil, a família do compositor e cronista Aldir Blanc, que morreu nesta semana em decorrência do coronavírus, disse que recebeu condolências de um assessor, e não da titular da pasta pessoalmente.

Segundo uma porta-voz da família, a nota de pesar foi enviada por Milton da Luz Filho, assessor da Secretaria Especial da Cultura em Brasília, a uma das filhas de Blanc por mensagem privada no Twitter.

A comunicação, que não leva a assinatura de Regina Duarte, mas apenas do órgão, surpreendeu pelo tom "institucional", "apesar das palavras bonitas", disse ela à BBC News Brasil.

Filho também se desculpou por ter recorrido à rede social para enviar a nota pois alegou não ter os contatos da família, acrescentou. O mesmo expediente teria sido usado com as famílias de Moraes Moreira e Rubem Fonseca, que também morreram recentemente, segundo noticiou o jornal Folha de S.Paulo.

"A família ficou estarrecida com as declarações dela (Regina Duarte) na entrevista", disse a porta-voz.

Antes mesmo da entrevista à CNN, Regina já havia sido cobrada pelo silêncio não só sobre a morte de Blanc, mas também de outros nomes da cultura brasileira, como Moreira, Fonseca e Flavio Migliaccio. Na ocasião, ela argumentou que, em vez de homenagens públicas, optou por enviar mensagens privadas às famílias.

A BBC News Brasil não teve acesso ao conteúdo da nota e a família de Blanc afirmou que não vai divulgá-la à imprensa, por ora.

Ainda muito abalada com a morte do pai, uma das filhas de Blanc, Patricia, disse à BBC News Brasil que assistiu a trechos da entrevista de Regina Duarte à CNN Brasil e ficou "enojada".

Blanc foi autor de mais de 500 canções, entre elas O Bêbado e a Equilibrista, que compôs com João Bosco e que ficou famosa na voz da cantora Elis Regina. A canção atingiu o topo das paradas da época e foi apelidada de Hino da Anistia, em um momento em que o Brasil caminhava para pôr fim à ditadura militar. Repleta de referências metafóricas, é considerada um clássico da música brasileira até hoje.

Ele morreu de covid-19 na última segunda-feira, aos 73 anos. Uma de suas filhas, Isabel, teve que fazer um apelo às redes sociais para que o pai pudesse ser transferido para uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Entrevista polêmica

Na entrevista concedida à CNN Brasil de seu gabinete em Brasília, Regina minimizou a ditadura militar brasileira, a tortura praticada no período e as mortes recentes de grandes nomes da cultura brasileira. Ela acabou interrompendo a conversa quando a emissora mostrou um vídeo enviado pela atriz Maitê Proença pedindo soluções para a classe artística em meio à pandemia do novo coronavírus.

"O que você ganha com isso? Quem é você que está desenterrando uma fala da Maitê [Proença] de dois meses atrás? Eu não quero ouvir, ela tem o meu telefone. Eu tinha tanta coisa para falar, vocês estão desenterrando mortos", disse Regina, pondo fim à entrevista.

A CNN esclareceu, então, que o vídeo não era de "dois meses atrás", mas havia sido gravado no mesmo dia da entrevista.

Nas redes sociais, vários artistas, alguns ex-colegas de Regina, criticaram fortemente suas declarações.

Quando questionada sobre seu silêncio sobre as mortes de nomes importantes da cultura do país, Regina afirmou que optou por "mandar uma mensagem como secretária para as famílias que fomos perdendo nos últimos tempos".

"Será que eu vou ter que virar um obituário? Quantas pessoas a gente está perdendo? (...) O reconhecimento ele existe ou não existe. Tem pessoas que não conheço. O Aldir Blanc, por exemplo, eu admiro muito, mas eu nunca estive (com ele). O país está cultuando a memória deles, não precisa da secretária de Cultura", disse Regina.

"Agora, se eu, amanhã ou depois, conseguir amadurecer a possibilidade de que isso é importante para as pessoas, eu posso ter no site da comunicação, da Secult (Secretaria de Cultura) o obituário (...) eu tenho mandado para as famílias", acrescentou.

"Não fiz por mal, peço desculpas, falei com as famílias, lamentei a perda, porque acho que nessa hora, a pessoa que está mais constrangida pela perda é a família e eu queria falar com elas diretamente, papel timbrado, secretária de cultura, obrigado pela contribuição à cultura brasileira".

No Twitter, o ex-comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, defendeu Regina Duarte.

"Fiquei encantado com a Regina pela demonstração de humanismo, grandeza, perspicácia, inteligência, humildade, segurança, doçura e autoconfiança que nos transmitiu", escreveu Villas Bôas.

 

BBC News

 


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