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Esportes

Esporte Clube Restauração viaja quase dez horas selva à dentro para partida de futebol

10 de Outubro de 2017 às 09:43:37

Colorado vem do Tejo. Percorrerá mais de duas horas em embarcações e passará outras sete caminhando na selva em meio a tamanduás, cotias e veados. Em época de São Francisco, os alvirrubros da Vila Restauração estarão na cidade, mais uma vez, para tornarem-se heróis do futebol numa das regiões mais remotas do Brasil.

Há mais de 50 anos, o time do Esporte Clube Restauração faz uma jornada de quase dez horas, a pé e de barco no interior da floresta, para participar do tradicional torneio de futebol do novenário de São Francisco de Assis, a festa do catolicismo que acontece em outubro no Jordão, município de pouco mais de 7 mil habitantes, a maioria indígena da etnia kaxinawa.

As partidas estão marcadas para a quinta-feira, 5, ápice dos festejos religiosos do santo, mas o espírito vitorioso do elenco se forma antes mesmo de entrar em campo contra a seleção da casa. Quatro dias antes, no domingo, o escrete urucum deixou a vila em canoas com motores de rabeta, às margens do rio Tejo.

A paixão pela pelota e o desejo da integração entre os povos são o combustível dos torcedores, da equipe técnica e dos jogadores, que este ano formaram uma comitiva de 53 pessoas. Até a Barraquinha, ponto de desembarque dos barcos e entrada para o varadouro em direção ao Jordão, foram 2h30 de viagem enfrentando corredores d´água estreitos e de calha cheia de troncos de árvores.

O varadouro até o Jordão, antes usado por seringueiros para a extração do látex da borracha, hoje está um pouco mais estreito.

O varadouro até o Jordão, antes usado por seringueiros para a extração do látex no auge do período áureo da borracha, hoje está um pouco mais estreito. Mas não foi engolido pela selva. Da margem do rio até a cidade serão mais de 7 horas na ‘pernada’ como se diz também na região.

Explica o líder da expedição e também um dos zagueiros do time, Francisco Oliveira da Silva, o ‘Chico do Joca’, que “onde a mata fecha, nós abrimos de novo com terçado. De modo que não há como acabar a ligação da vila com o município”.

Só é preciso ter cuidado com répteis ou outras espécies de bichos peçonhentos. Não é raro também encontrar pelo caminho roedores como a cotia ou mesmo um veado.

Chico do Joca é subprefeito da Restauração e, infelizmente, dessa vez teve de encarar uma situação triste no caminho, a morte súbita de um integrante do grupo que tomava cachaça ao longo do percurso.

“Foi algo muito chato, mas não pudemos fazer nada. Ele começou a vomitar muito sangue e logo teve uma parada cardíaca. Por causa disso, uma parte do nosso grupo teve de retornar com o cadáver”, lamenta.

Depois de terem deixado a vila às 5h30 do domingo, os atletas chegam às 15 horas do mesmo dia. Foram acomodados numa casa cedida pela prefeitura do Jordão. Ali, descansarão para os dois grandes jogos contra as seleções ‘máster’ e ‘juvenil’ da casa, na quinta-feira.

Em agosto do ano que vem é a vez da Seleção do Jordão fazer movimento contrário. É que nesse mês acontece a festa de São Raimundo Nonato, o padroeiro da Vila Restauração. Hora de retribuir a consideração de quem mora no Jordão.

O Neymar acreano

Ismael Rocha de Oliveira é o ‘Neymar’ do Esporte Clube Restauração. Aos 28 anos, ele é apontado como o maior talento entre os demais jogadores. Seu entrosamento com a bola o deixa vaidoso, mas não menos responsável.

Com chuteiras brancas, o atacante Ismael Rocha de Oliveira é o ‘Neymar’ do Esporte Clube Restauração.

No jogo do juvenil que aconteceu às 16 horas, ele foi o responsável pelas jogadas mais perigosas no campo do Jordão. No entanto, não fez gol. O único da partida foi de Rildo Melo, 28 anos, de pênalti depois que o zagueirão do Jordão meteu a mão na bola na pequena área.

A partida terminou em 1 a 0 e foi comemorada pelo grupo, sobretudo, por causa do resultado do primeiro jogo, do máster. “Pegamos um chocolate de 4 a 1 com os mais velhos. Mas futebol é assim mesmo”, comenta Ismael ‘Neymar’. “O importante foi dar um troco, mesmo fraquinho”.

E se não há troféu para levar para casa – nestes amistosos não há taça ou qualquer premiação parecida –, pelo menos valeu a pena posar para a foto.

“Estou contente de ver a reportagem aqui. Pelo menos vamos ser notícia em rio Branco. Fico muito feliz por isso”, emenda Chico do Joca.

Um bom público prestigiou o tradicional torneio de futebol do novenário de São Francisco de Assis

Mas a depender da multidão que foi prestigiar a partida, os atletas do Esporte Clube Restauração já são muito importantes. Perdendo ou ganhando, coroaram seus nomes pelo esforço sobrecomum em participar de uma partida de futebol num dos locais mais insólitos – mas não menos agradável e de pessoas calorosas – do planeta.

 

TEXTO: RESLEY SAAB/JORNAL OPINIÃO
FOTOS/JUAN DIAZ

 




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