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Adolescentes organizam lutas e divulgam na internet

Brigas intituladas 'Lutas do Lixo' eram combinadas pelo orkut entre jovens de classe média alta

Cenas de brutalidade. Socos. Chutes. Derrubadas e golpes de pescoço. A reportagem exibida na noite deste domingo no Estúdio SC, da RBS TV, mostra pequenos lutadores que apanham até sangrar em Florianópolis.

As brigas foram gravadas em vídeo, pelos próprios participantes, e colocadas na internet. Era por meio de uma comunidade virtual, chamada Luta do Lixo, que os garotos com idades entre 11 e 17 anos marcavam os encontros para as disputas violentas.

Nas imagens, que desde sexta-feira foram retiradas da internet, os golpes mostram que o principal alvo das brigas é a cabeça dos jovens. As lutas duravam, em média, 10 minutos, e cada round era cronometrado em uma tela. As brigas terminavam apenas quando um dos garotos desistia ou era nocauteado. Em algumas cenas, valia tudo, até estrangulamentos.

Na reportagem, o jornalista Francis Silvy revela que os estudantes que aparecem nas brigas são de famílias de classe média alta que frequentam colégios particulares na capital catarinense.

— Todo mundo tava querendo achar um pra lutar. Muitos ficavam me perguntando: vamos lá, vamos lutar na Luta do Lixo. Uns 200 guris do meu ano e do oitavo estavam querendo participar — conta um dos participantes.

Arena em casa

O ringue foi montado em um área de lazer na casa da família de um rapaz de 17 anos, no bairro Ratones, na região Norte da Ilha. Nas imagens, é ele que faz o papel do juiz e orienta os garotos nos intervalos.

— Os meninos pediam para vir aqui. Geralmente tinha alguma rixa, algum acerto a fazer, desde namorada até não gostar do sujeito. Porque, daí, todo mundo ia ver. Não ia ser uma briga na escola que, se alguém visse, eles seriam suspensos — explica o jovem de 17 anos.

Nos vídeos, muitos meninos também são humilhados. Em uma das imagens, um jovem de 13 anos pede o fim da briga e tenta sair do ringue. Mas, antes, é obrigado a afirmar diante das câmeras que não aguenta mais.

— Fala aí que você é uma franguinha — grita outro garoto.

Segundo os estudantes, as lutas começaram em março e ganharam popularidade entre os alunos de diversos colégios. No intervalo das aulas, o papo entre eles era sobre os resultados das disputas.

— Ah! Tu bateu pra caramba naquele cara. Quem perdia, era normal a galera ficar zoando da cara dele. Todo mundo começava a rir. Eu vi no youtube, achei legal e quis ver como é que é. Acabei participando, mas não foi uma experiência muito boa — conta um estudante arrependido.

— Tu vê teu filho apanhando e ainda tendo que mostrar a boca sangrando para sair do ringue. É terrível. E o que me preocupou é que tem uns meninos mais velhos instigando os pequenos como se fossem galinhos de briga — desabafa a mãe do garoto que se arrependeu de participar da Luta do Lixo.

Outros pais também ficaram assustados com as imagens:

— Achamos que era uma brincadeira sob os olhos dos adultos e não alguma coisa assim sem nível e com esse risco. Ficamos impressionados. Isso é terrível. Não consigo reconhecer meu filho. É totalmente outra criança, descontrolada. O vídeo é muito violento — avalia outro pai.

Os equipamentos usados para as brigas, como tatames, sacos de pancada e cordas, que eram utilizados para delimitar o ringue, ainda estão no local. Mas a dona da casa garante que as lutas foram proibidas.

— Achávamos que era uma brincadeira sem maldade, sem agressão. Mas quando nós vimos que eles estavam se machucando e sangrando, isso acabou — garante.

Punição

De acordo com o promotora de Justiça da Infância e Juventude, Vanessa Cavallazzi, os garotos envolvidos nas brigas cometeram atos infracionais e estão sujeitos a medidas socioeducativas. Já os pais podem pagar multas entre três e 20 salários mínimos.

— Embora estas lutas tenham acontecido fora do colégio, eles também têm que combater e reprimir esta agressividade que teve origem ali dentro — avalia.

O pediatra especialista em adolescentes, Gerson Coelho, alerta para os riscos que estas brigas violentas podem provocar nos jovens.

— Um traumatismo na cabeça de um indivíduo que ainda não tem a musculatura do pescoço desenvolvida pode causar um sangramento muito grave para o sistema nervoso central. Existem alguns órgãos abdominais, como a parede abdominal desses meninos, que é muito fina. Um chute pode romper o baço e levar a óbito — destaca Coelho.

 




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