O ano mal começou (ainda nem chegou o carnaval, né mesmo?) e o nosso (força de expressão, viu?) glorioso Flamengo, um urubu de pretensões pra lá de reais, já tem um daqueles chamados "jogo da vida". Se não passar pelo boliviano Real Potosí nesta quarta-feira e ganhar o direito de jogar a fase de grupos da Taça Libertadores da América, a casa cai.
A derrota, semana passada, para esse mesmo Potosí, nas alturas geladas da Cordilheira dos Andes, dadas as condições negativas para alguém que não está devidamente acostumado, até que pode ser considerada dentro da normalidade. Já ao nível do mar do Engenhão, onde a partida de volta vai ser realizada, aí a história se inverte completamente.
Jogar na altitude de Potosí, diga-se de passagem, é algo totalmente fora de propósito. Só a Fifa é que não sabe. Melhor dizendo, só a Fifa (e os bolivianos, é claro) é que não quer saber. Não tem preparação que dê jeito. Um sujeito acostumado a altitudes amenas simplesmente não consegue puxar o oxigênio necessário para o bom funcionamento dos pulmões.
Eu já vivi essa experiência. Mas não estou falando de disputar uma partida de futebol em cima do morro. Falo de um simples passeio pelas ruas de uma cidade situada na altura (às vezes acima) das nuvens. Foi em fevereiro de 2005. E só de andar do avião até o saguão do aeroporto já me deixou estafado, o ar faltando, os lábios ficando roxos, a cabeça doendo...
Pra completar, na minha primeira noite de La Paz eu resolvi encher o bucho com uma bela parrilada, desconsiderando todos os aconselhamentos prévios de moderar na hora da mesa. Por conta disso, foram tantos os meus transtornos respiratórios que eu cheguei a pensar que não veria o sol da manhã do dia seguinte batendo no gelo que recobre o monte Illimani.
Nos quatro dias seguintes que eu passei andando pela cidade, embora tenha abdicado de comer alguma coisa mais substancial, os efeitos da altitude não me deram trégua. Subir uma ladeirinha não muito íngreme, de uns trinta metros de extensão, eu só conseguia após várias tentativas, com paradas estratégicas para fazer o coração se acalmar dentro do peito.
Para tentar diminuir o meu desconforto, eu cheguei até a comprar uns filtros mágicos, uma pulseirinha feita com dentes de morcego e umas poções milagrosas vendidas por uma índia enrugada que garantia ter mais de cem anos, numa das estreitas calçadas do Mercado das Bruxas. Nada disso deu certo. Só senti alguma melhora quando peguei o vôo de volta.
Pois muito bem. Por conta de todos esses transtornos pelos quais um time de futebol passa para jogar num lugar como Potosí (cidade ainda mais alta do que La Paz, não custa lembrar) é que eu torço para que faça nesta quarta-feira no Rio de Janeiro um calor de 40 graus. E que, também, o Flamengo se classifique com, no mínimo, quatro gols de diferença. Aff!!!

















