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Regulamentação e censura

Nos últimos 90 anos a nossa opinião foi irresponsavelmente  alimentada por dois conglomerados de comunicação.   

         Entre os anos 1940 e 1960, Assis Chateaubriand tornou-se um dos homens mais influentes do nosso país. Seu poder derivava do monopólio que detinha dos nossos meios de comunicação, à época, considerado o maior conglomerado de mídia da América Latina, os Diários Associados. Mais de 100 jornais, dezenas de emissoras de rádio, revistas e a primeira emissora de televisão do nosso país, a TV-Tupi, inaugurada em 18 de setembro de 1950 compunha o seu império. Para tanto, contou com a ajuda financeira das elites da época, os chamados Barões do Café. 

         Para além do poder que detinha “Chatô”, como assim era conhecido, pesava contra ele gravíssimas acusações, entre elas, a de ter construído o seu império a base de chantagens empresariais e políticas, a ponto de perseguir os empresários que não anunciassem em seus veículos e os políticos que não rezassem em sua cartilha. Excessivamente fanfarrão, gabava-se de ser um provinciano que havia chegado ao centro do poder, e como um bom paraibano, enfrentava os seus adversários a base de peixeiradas. 

         Com o então presidente Getúlio Vargas conseguiu tudo o que  queria. Sua soberba era de tal ordem que a ele se atribui a seguinte expressão: “se a lei é conta mim, mudam-se as leis”. À propósito, em duas eleições flagrantemente fraudulentas, elegeu-se senador: em 1951 pelo Estado Paraíba e em 1954 pelo Maranhão.

         Lamentavelmente, dos maus exemplos impostos a nossa democracia decorrentes do referido monopólio, não tiramos as lições que se faziam necessárias a fim de evitarmos que um novo monopólio dos nossos meios de comunicação viesse se estabelecer em nosso país, e em razão disto, estamos submetidos à um monopólio ainda mais poderoso e perigoso, que àquele exercido pelo ambicioso Chatô. A exemplificar, o ora exercido pelo Grupo Globo de Comunicação.

Inicialmente controlado por um sujeito com mais espertice que o próprio Chatô e graças aos avanços das comunicações telemáticas, em particular, da televisão, eis que vem o jornalista Roberto Marinho, e ao substituí-lo, transforma o seu grupo de comunicação nisto que está aí, ou seja, não num quarto poder, e sim, no poder mais poderoso do nosso país, a despeito do que determina o artigo 220 parágrafo 5º da nossa constituição. Vejamos o seu enunciado: “Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”.

         Apenas nos Estados autoritários, ainda assim, sob o controle do próprio Estado, tais monopólios existem. Nos países verdadeiramente democráticos estes monstros não existem. Nos EUA, por exemplo, é proibida a propriedade cruzada de dois veículos de comunicação numa mesma região.

         Aqui no Brasil, quando se fala em regulamentar o uso dos nossos meios de comunicação, uma meia dúzia de famílias, justamente às que os controlam, de pronto se dizem ameaçados pela censura. Mentira pura!

         Regulamentar o uso dos nossos meios de comunicação não é censura, é sim, democratizá-lo, afinal de contas, enquanto consumidores de informações nós continuamos consumindo produtos inequivocamente estragados, ou mais precisamente, que são do interesses, não do conjunto da nossa sociedade, e sim, dos donos dos nossos principais veículos de comunicação.

 

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