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Garotos de Programa – programas para todos os gostos

maos-dadas-casal-gay_1_Quando na década de 1970, Chico Buarque de Holanda gravou a música “Geni e o Zeppelin, além de uma grande composição literária e musical, ele trouxe à baila um tema que era considerado tabu na sociedade brasileira à época e que vivia um período de obscurantismo e forte censura, impostos pelo regime militar do período: a homossexualidade, associada à hipocrisia.

A letra da música contava a história de um travesti que acabara por salvar a população de uma fictícia cidade ao se deitar com um suposto invasor. Apesar do feito heróico, Geni foi execrada por seus conterrâneos. Dizia um dos trexos da música:

Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

Alguns anos depois, em um tom que mais perece confessional, Zé Ramalho, um paraibano de tipo físico rude, voz grave e que pôde perfeitamente representar o esteriótipo do machão nordestino, compunha “Táxi boy”, melodia que até hoje faz sucesso nas rádios deste país e na qual ele dizia:

Baby!
Dê-me seu dinheiro que eu quero viver
Dê-me seu relógio que eu quero saber
Quanto tempo falta para lhe esquecer
Quanto vale um homem para amar você
Minha profissão é suja e vulgar
Quero um pagamento para me deitar
Junto com você estrangular meu riso
Dê-me seu amor que dele não preciso!

Na música, o homossexualismo é exposto sob a ótica do macho prostituto, que vai para a cama com outro homem apenas por dinheiro e sem envolvimento emocional. Afinal, existem diferenças substanciais entre Geni e o Baby de Táxi Boy?  Alguns psicólogos acham que tem, mas elas são tênues, assim como o amor e o ódio, cuja linha divisória em muitas ocasiões é quase imperceptível. Afinal, a sexualidade humana vai muito além da cama e da dicotomia macho e fêmea. Não são muitos os relatos de homens que vão para a cama com outros, mas são raríssimos aqueles que admitem isso publicamente. Portanto, os depoimentos que se seguirão nesta reportagem serão identificados por pseudônimos uma vez que, por razões óbvias, seus autores não desejam ser identificados.  

Luis Sérgio, 31, é um rapaz moreno, presumíveis 1,80m de altura, 78 kg, montador de móveis e trabalha em um ambiente essencialmente masculino. Casado há seis anos, tem um filho de cinco e a mulher dele, dois anos mais velha, espera a chegada da primeira filha do casal para daqui a três meses. Luis Sérgio faz programas com homens desde a adolescência. “Antes não cobrava. No máximo, ganhava um tênis ou uma calça Lee do ‘gay’ em troca da transa” – confessa. Ele garante que jamais foi passivo em uma relação e não admite beijo na boca. ”Dou companhia e o prazer que o cara procura, só isso. Em troca, reforço o meu orçamento pessoal”, completa. Ele diz que cobra em média R$ 50,00 por cada transa “dependendo do freguês” e afirma que a mulher nunca soube deste seu segredo. “Deus me livre se ela ao menos desconfiar” , diz, temeroso.

Mário, 35, é taxista e tem três filhos de um casamento que já dura 12 anos. Ele diz que são relativamente raras as vezes em que vai para a cama com outro homem. “Rio Branco ainda é pequena e os caras têm receio de se expor”, analisa. Admite, no entanto, que fatura pelos menos R$ 200,00 por mês numa atividade que algumas pessoas consideram “uma prostituição às avessas”. Mário diz que já transou como todo tipo de homem e, muitos deles, são empresários, juizes e até políticos. Todos, bem sucedidos, casados e “cidadãos acima de qualquer suspeita”, confessa.

A exemplo de Mário, cuja profissão favorece a aproximação para tais encontros sexuais nada ortodoxos, Antônio Pedro também enfrenta facilidades ainda maiores. Ele trabalha como garçom há 15 anos. Neste tempo todo, diz que já viu “de tudo” no ambiente de trabalho. Amazonense, de corpo esbelto, cerca de 70 kg e 1,75 de altura, não aparenta os 40 anos de idade que diz ter. Antônio confessa que já recebeu cantadas de homens que servia e que, em muitos casos, estavam acompanhados de esposas ou namoradas por meio de bilhetes ou quando era interceptado a caminho do banheiro. “Os caras bebem, ficam ‘altos’ e perdem a noção das coisas”, explica.

Luís Sérgio, Mário e Antônio Pedro são exemplos de homens que atuam nas alcovas para fazer felizes outros homens. Os três podem estar em qualquer lugar, mas se proliferam mesmo é nos anúncios classificados dos jornais das grandes cidades ou em catálogos encontrados reservadamente nos hotéis de três ou mais estrelas, graças a uma sempre bem vinda gorjeta paga ao porteiro ou ao camareiro, não raro eles mesmos potenciais “táxis boys” ou escort’s mens (garotos de aluguel ou homens de companhia, respectivamente). Estes podem ser encontrados também em sites eróticos pela internet. Numa época em que as relações humanas se ampliam – ou se fecham cada vez mais graças à grande rede – como no caso do monstro-virgem de Realengo – essa mesma amplitude nos mostra o quanto é variada e complexa a diversidade sexual humana. 

Os diversos sexos

Embora seja o eixo central de nossas vidas, a sexualidade é um dos aspectos mais conflituosos do ser humano. E sexualidade não se refere apenas ao prazer erótico, as necessidades biológicas ou à possibilidade de procriação. Ela envolve as pessoas como um todo e influencia diretamente os sentimentos e a maneira de ser agir e pensar. Para o médico, psiquiatra e psicodramatista Ronaldo Pamplona da Costa, a sexualidade é múltipla, variável de pessoa para pessoa e tem uma dinâmica própria, em cada ser humano, podendo exteriorizar-se de diferentes maneiras ao longo de uma vida, até mesmo em um único dia.

A sexualidade não é uma experiência estanque e os seres humanos não podem ser "classificados" pela forma como a vivem, mesmo quando constituem minorias. Dessa "classificação" nascem os estereótipos e os preconceitos. Para ser livre e ter garantia a sua cidadania, o ser humano precisa viver a sexualidade na plenitude.

Sobre esta abordagem, ORB conversou com o psicólogo Jéferson Renato Montreosol, 27, professor, mestre em Educação e coordenador dos serviços de Psicologia da FAAO – Faculdades da Amazônia Ocidental, que atua em um grupo de estudos sobre os aspectos psicossociais da sexualidade humana. Segundo Jéferson Montreosol, compreender as razões que levam um homem a se relacionar sexualmente com outro não sendo homossexual assumido, exige o resgate de vários aspectos que envolvem a vivência do ser humano. Segundo ele, vivemos em uma sociedade capitalista que tem como base uma formação patriarcal seja na família, na igreja ou em outros grupos sociais.

Essa configuração é que vai guiar o desenvolvimento psicológico dos indivíduos. A Psicologia, neste contexto, trabalha com aspectos mais amplos daqueles estudados pela Sociologia e pela Antropologia nas questões de gênero, que buscam compreender as diversas formas de manifestação da sexualidade humana. Ou seja, não é possível nos dias atuais estabelecer uma dicotomia homem/mulher para que possamos compreender este complexo universo.

“A minha configuração sexual vai depender do grupo social em que vivo”, explica o professor, que complementa: “o heterossexismo se alia com o patriarcalismo e isso configura uma sociedade machista originada e reforçada pelo capitalismo. Se, por exemplo, assumo a minha bissexualidade, sou rejeitado, pois isso não é visto com bons olhos pela sociedade, pois tradicionalmente ao homem é dada a tarefa de mantenedor da família. Consequentemente, do patrimônio, pois os bens são a razão do capitalismo”. 

Estes “garotos de programa” seriam homossexuais ou bissexuais “enrustidos” (que não admitem publicamente estas condições)? – Segundo Jéferson Montreosol, não é tão simples responder a esta pergunta. “A nossa sexualidade está muito atrelada ao ato sexual. Precisamos ampliar os mecanismos de compreensão deste processo e quebrar paradigmas para compreender estas pessoas ou atos como apenas um dos aspectos da sexualidade. Segundo o psicólogo, os outros aspectos, envolvem, além da relação com a família, a igreja e outros segmentos sociais, também o corpo (vaidade). “Tudo isso, denota a nossa sexualidade” – finaliza.

Ronaldo Pamplona da Costa, citado no início desta matéria, vais mais longe. A sigla LGBT – sigla que ficou popularizada graças às tradicionais Paradas Gays, envolvem mais que homossexuais, bissexuais, lésbicas, travestis e transexuais. Pamplona é autor do livro “Os Onze Sexos”, que faz uma discussão aprofundada destas variantes da sexualidade humana.




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